“O respeito pelo passado - eis o traço que distingue a instrução da barbárie; as tribos nómadas não possuem nem história, nem nobreza” A. Pushkin
A expressão “nomadismo tecnológico” generalizou-se para descrever a situação do homo sapiens digital (Prensky, 2009) em que ao indivíduo passou a ser dada a possibilidade de acesso errante às tecnologias de comunicação e em que estas o acompanham onde quer que vá; trata-se de uma condição possibilitada pela acção concertada das redes sem fios e da miniaturização dos dispositivos computacionais.
O debate sobre o “teletrabalho”, afluente a partir da década de 80, ou mesmo o sobre o tele-estudo e o e-Learning, emergente uma década depois, são seus precursores. No entanto, enquanto a prática demonstrou que o funcionamento à distância destes esbarrava com frequência na anomia, sucumbindo-se ao isolamento ao mesmo tempo que, na prática, a inflexibilidade dos espaços não acompanhava a flexibilidade aparente da gestão do tempo – podia ser possível “trabalhar no conforto do lar e a qualquer hora do dia”, mas continuava a ser necessário fazê-lo com acesso aos meios de comunicações cablados; já para não falar, do ponto de vista da carreira profissional, nas desvantagens práticas de um teletrabalhador isolado, ausente do ambiente profissional e da criação de laços com a chefias e supervisores ou da dificuldade experimentada por muitos em gerir o tempo e lidar eficientemente com as exigências da atenção repartida (entre, por hipótese, a redacção de um texto e a solicitação de atenção de um filho menor) . O "tempo mental" de cada um difere do tempo civil e, para a maioria, continua a ser igualmente inelástico.
As redes móveis ao assegurarem a conectividade na deslocação permitem fazer do m-Learning um passo adiante face ao e-Learning: enquanto o segundo constrange psicologicamente (no limite, ninguém consegue ficar um dia inteiro em casa frente ao computador) o segundo "liberta". Tem no entanto o reverso do desafio da "concentração" e da retenção da “atenção” – por ex., será que é possível o estudo profundo em condições imediatas, necessária para um aproveitamento eficiente do tempo, com aturados níveis de abstracção, sem um processo mental de chill out e pré-disposição? Por ex., pode ser possível usar um smarthphone para estudar no fresco relvado de um jardim público, mas será que se consegue fazê-lo com proveito nos 20 minutos que medeiam entre sair de casa e partir para apanhar um comboio? Tradicionalmente, a organização mental dos indivíduos pressupõe por comodidade a associação de determinados lugares a determinadas tarefas; um aprendente móvel bem sucedido teria primeiro que ser desprogramado; seria necessário soltar a associação cultural operando uma espécie de “efeito Renascença” em larga escala, desconsagrando mentalmente o espaço da sala de aula como o da igreja para poder levar com sucesso a disponibilidade para aprender, como para comungar e ouvir missa, pelos cabos de fibra óptica.
Do nosso ponto de vista, a chave que facilita a mudança não deve pois ser procurada na "multifuncionalidade" dos espaços (extensão das actividades nos espaços individualmente considerados) mas na ligação entre eles. É menos conveniente que se possa "fazer muitas coisas ao mesmo tempo e sem mudar de local" e mais poder "fazer coisas em tempos e locais em que de outra forma não se fariam".
A execução simultânea de múltiplas tarefas (multitasking) pode ser fácil para um computador – seguindo uma lógica notacional - mas para muitos “imigrantes digitais” revela-se motivo de stress e frustração; o que não invalida que a função modifique o órgão e que as gerações emergentes de “nativos digitais” - para usar a expressão igualmente popularizada por Prensky (2001) para descrever os nascidos após 1980, com acesso às tecnologias digitais em rede logo a partir das primeiras fases da sua instrução[86] - venham a beneficiar da tecnologia de uma forma diferente. Mais do que pela idade, o “nativo digital” define-se pelo à vontade com que interage com as tecnologias da informação, sendo que numa primeira fase, os que maior partido conseguiram delas retirar foram, de acordo com o Efeito Mateus[87], aqueles cuja formação já era à partida mais sólida e abrangente; ou seja, na fase da introdução, as tecnologias da informação agravaram tendencialmente o fosso com os que já tinham pouco acesso à educação.
Além do domínio cumulativo dos saberes, o desfasamento de competências impostos entre as gerações mais velhas de “imigrantes digitais” e as mais recentes de “nativos digitais” tem ainda um impacto conhecido no sistema de ensino, com o corolário de subaproveitamento e colocação em questão da autoridade dos primeiros.
Tabela 10: Contraste entre nativos e imigrantes digitais
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Aprendentes: Nativos digitais
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Professores: Imigrantes Digitais
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Preferem receber informação rapidamente de múltiplas fontes multimédia
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Preferem a disponibilização progressiva e controlada da informação de um número limitado de fontes
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Preferem o processamento paralelo e a execução de múltiplas tarefas
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Preferem o processamento singular e tarefas individuais
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Preferem imagens, sons e vídeo antes do texto
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Preferem fornecer texto antes do multimédia
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Preferem o acesso aleatório a recursos hiperligados
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Preferem o fornecimento linear de informação, de forma lógica e sequencial
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Preferem a interacção simultânea com múltiplos interlocutores
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Preferem a acção independente dos estudantes
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Preferem a aprendizagem just-in-time
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Preferem ensinar just-in-case (não vá aparecer no exame)
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Preferem a gratificação instantânea
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Preferem gratificar/atribuir notas em diferido
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Preferem a aprendizagem relevante, instantânea, útil e divertida
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Preferem ensinar segundo o currículo e testes padronizados
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Fonte: Ian Jukes e Anita Dosjal, The Infosavy Group
Palfrey & Gasser que dedicaram um volume inteiro à condição dos “Nascidos Digitais” (2008, p. 237), incluindo um capítulo inteiro - o onze - consagrado ao seu estatuto de “aprendentes”, relatam-nos uma série de episódios paradigmáticos tanto do desfasamento entre gerações como, sobretudo, da dificuldade experimentada pelo sistema de ensino em integrar a tecnologia. Resulta que incorrem tanto em falácia os tecnófilos como dos tecnófobos; nem a introdução “por si” de computadores e quadros interactivos nas salas de aula é forçosamente proveitosa; nem necessariamente o perfil típico de processamento da informação pelo nativo digital (segundo uma lógica de “apascentação”[88] da atenção e leitura diagonal global, seguido do “mergulho profundo” nos temas que interessam e eventualmente na entrada no feedback loop, seja pela difusão entre conhecidos, facilitada pelo e-mail, seja pela retroalimentação do debate como na típica adição de comentário em blog) o condena à superficialidade. Na realidade, se é por ex. certo que os nativos digitais tendem a não comprar jornais e em alternativa se inclinam a ler “as gordas” em linha; não é menos certo que, ao contrário da geração anterior, em contrapartida, eles o fazem com maior frequência ao longo do dia.
Tabela 11: Habilidades (dos nativos) digitais
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Sociais/Pessoais
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Cognitivas/Físicas
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Técnicas
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Comunicação
Conhecimento Geral
Colaboração
Auto-estima
Processamento paralelo
Persistência
Aprendizagem com os pares
Capacidade de assumir riscos
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Múltiplas tarefas
Pensamento lógico
Capacidade de solução de problemas
Aprendizagem pelo erro
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Coordenação mão-olho
Confiança Técnica
Web design / criação de conteúdo
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Fonte: Green & Hannon (2007)
Malgrado o preconceito erudito de que a cultura digital é um atentado contra a literacia e a cultura profunda e reflectida dos livros, desmentido pela evidência de que os indivíduos com acesso à Internet acabam por ler mais do que os sem ele, continuando a forma escrita a ocupar um lugar central[89] - não existem elementos objectivos suficientes que permitam concluir que as novas gerações sabem nem mais nem menos do que as anteriores; para este efeito, Bennet, Maton & Kervin (2000) introduzem uma pitada de “realismo” na discussão ao notar – não por acaso, uma vez que redigem a partir do Reino Unido, país que se agitou recentemente com a reforma protagonizada por Sir Jim Rose (Whelan, 2009) que flexibilizou o curriculum do ensino primário, abrindo nele espaço para as TIC, como o Twitter (Curtis, 2009) - com apoio em estudos recentemente elaborados nos mais distintos continentes que os nativos digitais não se furtam à regra geral de que por cada participante activo (por cada “redactor) continua a existir uma percentagem entre 4 e 5 vezes mais elevada de consumidores passivos de informação; nem que, na realidade, todos os jovens são necessariamente “craques” das TIC, detendo uma comparativamente larga percentagem um défice de capacidade no seu maneio[90].
Para Portugal, o estudo e-Generation (G. Cardoso, et al., 2007, p. 167 e seg.s) fornece alguns indicadores interessantes para o estrato etário entre os 8 e os 18 anos. Assim, por razões que se explicam desde logo pelo escasso orçamento e dependência familiar, a generalidade dos adolescentes tem um uso comedidamente criativo do telemóvel; focando-se sobretudo nas funções mais básicas como o SMS (com uma média de 27 enviadas por dia) enquanto o acesso ao e-mail por ex. nunca foi experimentado por 4/5, uma percentagem ligeiramente superior mesmo para os que nunca usam o telemóvel para aceder à Internet (81,3%); ou sequer (mais de metade) a funcionalidade “Agenda”.
Apesar de praticamente ominipresente entre os adolescentes portugueses, parece assim apressado afirmar que eles estão hoje a descobrir novos e especialmente criativos usos a dar-lhe ou que já é evidente uma nova forma de “literacia digital” – para esse efeito, por ex., apesar de a maioria (51,7%) ter câmara no telemóvel, a média de uso está abaixo das seis fotografias semanais – com uma curiosa prevalência na preferência dos rapazes (6,7 fotos por semana) sobre as raparigas (4,7 fotos por semana). E reputamos esta diferença por género de “curiosa” porquanto vai em consonância com aquilo que se sabe das diferentes apetências estruturais dos cérebros masculinos e feminino – conhecendo-se por um lado que o multitasking é mais fácil para as mulheres e que muitas das competências em jogo para o sucesso dos nativos digitais apelam mais ao hemisfério esquerdo do cérebro[91] e por outro que a “imagem” tem um poder de estímulo superior para os homens.
O fosso entre infocompetentes e infoexcluídos não se resume no entanto às gerações ou aos géneros. Numa óptica desenvolvimentalista, “a brecha digital define-se como a separação que existe entre as pessoas (comunidades, estados, países) que utilizam as TIC como parte rotineira da sua vida diária e aqueles que não têm acesso às mesma que ainda que as possuem não sabem como utilizá-las” (Santoyo & Martínez, 2003).
Em suma, na sociedade internacional a “exclusão digital” diz também respeito ao fosso entre estados ricos e pobres e ao facto de aos segundos faltarem as infra-estruturas e as condições económicas que permitam o ingresso na sociedade da informação.
Dentro de cada estado corresponde ao fosso entre os que têm e os que não têm acesso a computadores e à Internet. É motivada pela diferente distribuição na sociedade de recursos: a) materiais (rendimento e posse de equipamento); b) temporais (disponibilidade para usar os novos Media); c) mentais (competência técnica); d) sociais (redes de relações que favoreçam a "iniciação"); e e) culturais (estatuto e outras recompensas percebidas como motivadoras).
[87] Termo cunhado pelo sociólogo Robert Merton (1968) a pretexto da passagem do Novo Testamento - "Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter" (Mateus:25:29) - para explicar que aqueles com maior acesso e que desenvolveram maiores competências iniciais nas TIC e no uso da WWW tendem a aproveitar mais dela, fazendo disso uma vantagem comparativa. Aplicado à "exclusão digital" tal significa que os excluídos ficam cada vez mais excluídos, enquanto os infocompetentes são cada vez mais favorecidos. Da mesma forma, sistemas de funcionamento em rede, como o motor de pesquisa Google, que indexa os sítios segundo a sua popularidade, chamando a atenção para eles e portanto torna-os ainda mais populares funciona segundo o mesmo princípio. Mesmo quando são inerentemente "igualitárias" na forma como facilitam o acesso à informação, o acesso ao conhecimento nas redes continua a organizar-se segundo princípios diferenciadores e tendencialmente centrípetos, mesmo que polinucleares.
[91] Esta clivagem por género, como construção projectiva, é particularmente bem explorada nos estudos apresentados na obra Growing-up online(Weber & Dixon, 2007).