Advertência: parte da funcionalidade deste sítio encontra-se presentemente diminuída, aguardando manutenção.

Framework

III. 1 Modelos e estilos de aprendizagem

Uma reflexão sobre a didáctica do mobile learning é um mergulho na forma pela qual as características únicas e específicas deste devem ser aproveitadas para a construção do conhecimento. Em termos objectivos esta originalidade é medida pelas affordances das tecnologias particularmente[58] disponibilizadas pelos dispositivos móveis para a transposição dos saberes – dadas, no modelo FRAME de Koole (ver cap. anterior), pela tripla intersecção entre dispositivos e sujeitos (implicando o equacionamento e exploração das questões especificamente ligadas à usabilidade); entre dispositivos e meio social (implicando a exploração da tecnologia social); e entre a dimensão social e o aprendente (implicando o aproveitamento da facilidade das formas de aprendizagem pela interacção).

Apoiados em Klopfer, Squire & Jenkins (2002), Naismith et al.. (2004, p. 9) identificam analogamente cinco características específicas dos dispositivos móveis para fins educativos:

  • Portabilidade
  • Interacção social
  • Sensibilidade ao contexto
  • Conectividade
  • Individualidade

A utilização de práticas de mobile learning deve ser integrada no ensino-aprendizagem quando qualquer uma das cinco dimensões anteriores sirva o propósito pedagógico em vista; para este efeito Torrisi-Steele (2006), na esteira de Jonassen, Peck & Wilson (1999), elaborou a seguinte tabela de conformidade entre os princípios da filosofia construtivista e as características dos dispositivos móveis.

Tabela 7 - Conformidade das características dos dispositivos móveis com os princípios da aprendizagem construtivista

Princípios Guia da Aprendizagem

Características dos dispositivos móveis

Centrada no Aprendente

Pessoais

Activa
(manipulativa/observante)

Incluem ferramentas para registo de dados e interacção com o ambiente.

Construtiva  (articulatória/reflexiva)

A disponibilidade da comunicação sem fios permite o cotejamento da informação e a interpretação de resultados a partir de diversas fontes.

Intencional (reflexiva/reguladora)

Ubiquidade. Permitem a especificação de objectivos a partir do Contexto.

Autêntica
(complexa/contextual)

Exploração da informação em contexto real. Adaptabilidade ao apoio a situações do mundo-real ao invés de seguir uma sequência pré-determinada.

Cooperativa (colaborativa/conversacional)

Conectividade. Suporte à interacção com pares e tutores de forma rica (com imagem e som capturados instantaneamente, além do texto).

Assentes quais são as mais-valias do mobile learning a tarefa seguinte é desenhar as diversas etapas do percurso de aprendizagem. Para este efeito Ryu & Parsons (2009) desenvolveram um modelo que pretende conjugar num sentido aplicado as variáveis da perspectiva técnica com a da aprendizagem. Enriquecemos a sua proposta com o apport de outras metodologias, mormente as receitas de Jonassen para a construção de um ambiente de aprendizagem colaborativo; os estilos de aprendizagem pela prática de Kolb (1984), no tocante à categorização das actividades e a necessidade de trabalhar a aprendizagem nos seus diversos domínios (não só cognitivo, como afectivo e motor, segundo as taxonomias de Bloom, Krathwohl e Harrow, respectivamente). A síntese é o esquema-guia que a seguir se apresenta (e norteará os estudos de caso mais adiante).

Ilustração 5 - Modelo-guia para o desenho da aprendizagem móvel



Para fins reflectivos, esta aproximação tipo “chave-dicotómica” é passível de ser combinada/complementada ainda com inúmeros outros modelos, como o conversacional de Laurillard (2002) - o qual, estendido nomeadamente com as propostas de Siemens & Tittenberger (2009, p. 19), Bruns (2007), Jones & Marsden (2006, p. 86) entre outros gerou a Tabela 8, que permite uma interpretação mais rica.

Outra aproximação possível - talvez mais em voga do que a lógica de conjugar as tecnologias com as affordances mais adequadas para servir as actividades condizentes com os diversos “estilos de aprendizagem” (em si um conceito sobremaneira simplista) - seria por ex. pela óptica da Teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner (2006). Neste último caso haverá que identificar de quais tecnologias móveis se pode retirar melhor partido para a exploração dos diversos tipos de competências que compõem a inteligência (designadamente: verbal/linguística, lógico/matemática, visual/espacial, somato/quinestésica, musical/rítmica, interpessoal e intrapessoal). Por exemplo, parece evidente que a captura de imagem favorece a terceira, enquanto os sensores de aceleração que se tornaram moda nos smartphones podem servir a quarta.

Tabela 8 - Tipos de actividade e exemplos de aplicações móveis correspondentes

Orientação da Actividade

Propósito

Tecnologias Móveis c/ affordances preferenciais

Exemplo de aplicações

Assimilação/ Disseminação/Exposição / Aceder

Processar meios narrativos, gerir e estruturar informação

UMTS, Wi-Fi, streaming de TV e rádio

Google Docs, Zoho Mobile, Social Bookmarking, Podcasting, ebooks, Blinx, Bloove

Adaptação / Reinterpretar

Ambiente que muda com o input do utilizador

Simulações, roleplay

Ecrã táctil, sensores de movimento, bússola electrónica

Vollee’s Second Life Mobile, Layar, Realidade Aumentada, Mapas Conceptuais, Jogos

Comunicação / Discussão / Reflexão / Partilhar

Diálogo

Reconhecimento de escrita, vídeo in/out, voz in/out, teleconferência, Push to Talk, SMS, microblogging

Eportfolios, blogs e vblogs, wikis, OneNote Mobile, Winksite, Bluepulse, Qipit, EQQ12, Twitter, Jaiku,Woopho

Produção / Demonstração / Elaboração / Registar

Os aprendentes produzem algo

Fotografia e registo áudio, MMS

Youtube Mobile, Flickr Mobile, Trackr!

Experiência / Descoberta / Exploração / Relacionar

Actividades interactivas focadas na resolução de problemas

GPS, RFID, Bluetooth

Layar, Bionic Eye, GMaps Mobile, Wherigo, mySKY

Demonstrada ou pelo menos convincentemente sugerida a linha de continuidade dos quadros didácticos do m-Learning face aos do e-Learning, por racionalidade de espaço não nos vamos debruçar aqui sobre as especificidades concretas da vertente tecnológica, para cujo fim chamamos a atenção do leitor para o excelente trabalho da Australian Flexible Learning Framework[59], plasmado num conjunto de relatórios subordinado ao esforço comum da definição pormenorizada de standards (formatos e tecnologias) e requisitos mínimos a ter presentes, cuja consulta é indispensável – mormente a publicação m-learning Standards Review Report v2.0 (Framework, 2008).

Concomitantemente, Herrington, Herrington, Mantei, Olney & Ferry (2009, p. 134) a título de receituário adiantam os seguintes princípios a incorporar no desenho do Mobile Learning (ML):

  1. Relevância real: utilizar o ML em contextos autênticos;
  2. Contextos móveis: usar o ML em contextos em que os aprendentes são móveis;
  3. Explorar: assegurar tempo para a exploração das tecnologias móveis;
  4. Misturar: Combinar o ML com tecnologias não móveis;
  5. Espontaneidade: permitir o uso do ML de forma não programada;
  6. Em todo o lado: usar o ML em espaços de aprendizagem não tradicionais;
  7. Com quem quer que seja: contemplar o uso simultaneamente individual e colaborativo;
  8. Affordances: tirar partido das especificidades únicas das tecnologias móveis;
  9. Personalizar: planear o uso dos dispositivos detidos pelos próprios aprendentes;
  10. Mediação: Usar o ML para mediar a construção de conhecimento;
  11. Produsão: Usar o ML para simultaneamente produzir e consumir/usar conhecimento.

Para uma tradução prática do anterior veja-se, adiante, nos Apêndices, as análises dos estudos de caso, mormente o Apêndice 14: Estudo de caso: mySKY PLUS.

 


[58] É difícil dizer “exclusivamente” pois nenhuma tecnologia presente num dispositivo móvel deixa de estar presente noutros dispositivos não móveis – por ex. o GPS, seja na ligação por cabo de série ou USB (GPS Mouse) seja sem fios (antena Bluetooth GPS) pode marcar igualmente presença em qualquer computador de secretária.

[59] Vede em linha: http://e-standards.flexiblelearning.net.au/background/mlearn_bckgrnd.htm Na óptica da usabilidade e para os produtores de conteúdos existem várias obras de referência disponíveis e em particular Designing the Mobile User Experience(Ballard, 2007).

III.4 Ambientes pessoais de aprendizagem em mobilidade. Critérios para a construção.

No final do capítulo anterior vimos como o conceito de “ambiente pessoal de aprendizagem” (APA) escapa às preocupações das teorias pedagógicas e de desenho de instrução na medida em que, sendo uma construção eminentemente pessoal, ao debruçarmo-nos sobre eles, não estamos a lidar com o planeamento de uma realidade institucional e sincrónica mas antes diacrónica; ao longo da vida.

Como tal a construção de um APA deve reger-se pela preocupação da sua manutenção a prazo e nos diversos contextos existenciais (pessoal, profissional, familiar…) e operacionais (dispositivo de comunicação detidos e disponíveis). Propomos assim, numa primeira aproximação, de nossa lavra, defini-la como “processo de selecção e adopção de ferramentas de gestão digital de informação e de comunicação tendentes à exponenciação da aprendizagem, à prossecução de interesses, valorização e aumento da produtividade pessoais e à recolha e registo ao longo da vida dos diversos materiais e conhecimentos obtidos a partir das experiências formais e informais tendo em vista a sua disponibilidade, organização, reaproveitamento e recombinação futuras, incluindo a possibilidade da sua partilha discricionária, apresentação e valorização perante o mercado de trabalho”.

Um ambiente pessoal de aprendizagem contempla a conjugação de preocupações de duas grandes ordens: “arquivísticas” (manutenção e catalogação da informação de forma a facilitar-lhe a organização e posterior acesso; portanto eminentemente “intra-acção” do utilizador com as suas memórias) e “comunicacionais” (participação em redes de aprendizagem pessoais e facilidade de partilha; portanto “interacção” com o meio e os outros). Está sujeito aos mesmos requisitos a que a opção pelos standards do mobile-Learning (Framework, 2008, p. 6) deve obedecer:

  • Interoperabilidade (entre os diversos dispositivos detidos e manuseados pelo utilizador, portáteis ou não);
  • Reutilização (susceptibilidade de recuperação e recombinação nas diversas ferramentas de edição);
  • Facilidade de Gestão (que as opções feitas tenham curva de aprendizagem não tão inclinada que seja auto-sustentável);
  • Acessibilidade (garantia de acesso não só pelo próprio, em diversos contextos, como por outros, caso este decida partilhar);
  • Durabilidade (compatibilidade e passibilidade de uso directo em ou migração para sistemas e tecnologias futuros);
  • Escalabilidade (capacidade de responder ao aumento das necessidades, conforme esta se faça sentir com a divergência de interesses);
  • Sustentabilidade de Custos (adequação aos estipêndios individuais).

Apesar de a manutenção de um APA ser uma preocupação transversal a todas as idades e de estes deverem coexistir com a frequência do ensino formal e com a participação tanto em ambientes virtuais de aprendizagem como em comunidades de interesses ou relações sociais o seu verdadeiro potencial encontra-se no domínio daquilo que Knowles definiu como “Andragogia”. É nela e nas teorias de suporte à aprendizagem auto-dirigida que devemos ancorar a discussão conducente à tendência emergente do que alguns cunham como m-(self)-learning ou auto-aprendizagem-móvel (Coll & Monereo, 2008, p. 189), abrindo perspectivas para a materialização das propostas de Illich (Apêndice 2: Contributo e utilidade das tecnologias móveis para a convivialidade e a desescolarização). Estranhamente, debruçando-nos sobre a literatura, isso não tem sido feito e raramente se lhe lhes encontra menção.

Em sentido amplo, Knowles (1975, p. 18) fala de aprendizagem auto-dirigida como “o processo no qual os indivíduos tomam a iniciativa de, com ou sem a ajuda de outros, diagnosticar as suas necessidades de aprendizagem, formular objectivos de aprendizagem, identificar os recursos humanos e materiais para aprender, escolher e implementar as estratégias apropriadas, e avaliar os resultados obtidos”.

Podemos, numa aproximação imediata, do ponto de vista do suporte, conceber as estratégias para a construção de um APA adequado à “mobilidade” do indivíduo em três grandes tipos, consoante sejam baseadas em:

  • Aplicações portáteis. O “dispositivo móvel” transporta todas as ferramentas necessárias sem, porém, necessariamente as executar ele próprio; pode servir meramente de “armazenamento” – por ex. um stick USB – que se executa e a que se acede a partir de qualquer computador de secretária tradicional. Trata-se de uma tendência afluente com expressão por ex. no sítio portableapps.com, que disponibiliza centenas de aplicações adaptadas para tal fim ou no MoWeS Portable[69], permitindo descarregar um servidor Xaamp[70] portátil, personalizável com dúzias de aplicações à escolha. É igualmente a lógica subjacente às tecnologias de virtualização pela emulação portátil como o VMWare ACE ou a aplicação de código livre VirtualBox[71].
  • Plataformas na Web 2.0. A informação é alojada em serviços disponíveis na Internet que fornecem a interface para a introdução e armazenamento da informação. O utilizador utiliza um serviço tipo mashup para integrar e fazer a gestão – é o caso paradigmático do gRSShopper[72] de Stephen Downes mas também do iGoogle[73] e da tecnologia Yahoo Pipes[74].
  • Aplicações em dispositivos móveis. Isoladas (por ex. um agregador RSS com capacidades multimédia como o BeyondPod[75] ou um navegador tal o SkyFire ou o Opera Mobile, expansível com widgets para reunir o mais diverso tipo de informação) ou combinadas (por ex. o MS OneNote; que inclui versão móvel, sincronizando-se com a versão desktop).

Ilustração 6 - Representação esquemática de um ambiente pessoal de aprendizagem móvel



Naturalmente, o ideal é uma conjugação dos três tipos cabendo a cada utilizador aferir as suas necessidades e escolher as ferramentas com base nos critérios anteriormente descritos. A título exemplificativo apresentamos na Ilustração 6 uma representação esquemática do APA do autor, limitada aos recursos usados na elaboração deste projecto.

Da análise de necessidades para a tarefa concreta resultou a opção por conjunto de ferramentas que têm como especificidade comum poderem marcar presença nos quatro níveis contemplados (optámos por distinguir as “Aplicações Web” da existência de um alojamento pessoal; embora não seja um “requisito”, o segundo, filiado numa lógica Web 1.0 ainda permite uma certa flexibilidade e torna-se necessário no domínio da “experimentação”, permitindo um acréscimo de controlo na publicação e acesso a uma versão pensada para ser acedida a partir de dispositivos móveis deste trabalho, que se pode consultar em linha no endereço http://mlearning.hugovalentim.com).

Assim, prosseguindo o caso de estudo, o programa de gestão de referências bibliográficas EndNote – aplicação comercial que conhece réplica recente no Zotero, um add-on para Firefox que se integra igualmente como “suplemento” dos MS Word e do OpenOffice - não só existe em versão desktop, onde se conjuga com o processador de texto e permite inclusive a ligação a pesquisa directa de fontes em linha como é sincronizável com um aplicativo para PDA, permitindo transportar a informação para o campo e eventualmente complementá-la com a consulta de fontes feita numa biblioteca ou livraria físicas.

Através do denominador comum de uma linguagem baseada em XML entrosa perfeitamente com a Web 2.0 e portais como o CiteULike[76] ou o CiteSeer[77], que reúnem comunidades de utilizadores comungando dos mesmos interesses académicos, deixando-os partilhar referências etiquetadas e categorizadas. Como forma de “transporte” é ainda possível alojar uma cópia sincronizada da bibliografia no EndNoteWeb[78].

A aplicação Microsoft OneNote por seu turno faculta uma interface construída sobre a metáfora do escritório (onde os documentos se agrupam em dossiers e separadores) que permite não só o fácil armazenamento e organização de informação em qualquer formato como dispõe de facilidades OCR (Optical Character Recognition) que facultam a sua pesquisa; comunica com uma aplicação para PDA para sincronização automático e recolha de notas.

O mesmo tipo de flexibilidade se estende às demais aplicações mencionadas, havendo que reter à laia de conclusão que, em última análise, os factores mais relevante são de facto a interoperabilidade e a facilidade de gestão, normalmente garantidas quanto mais universal seja a ferramenta, quanto maior seja a sua base de utilizadores e adopção, mais abertos sejam os seus standards e amplos os formatos suportados.

 De resto, seria fastidioso inventariar os milhares de aplicações passíveis de uso, com os seus prós e contras; para esse efeito sítios como o Learning Tools Directory (http://www.c4lpt.co.uk/Directory/index.html) ou o Web 2.0 Tools and Applications (http://www.go2web20.net/) fornecem listagens categorizadas e comentadas que podem ser alvo de consulta pelos interessados; constituindo um ponto de partida para a opção pelos instrumentos mais adequados para cada caso.

 


[72] Em linha: Disponível em http://grsshopper.downes.ca/

[73]Acessível através do URL: http:// www.google.com/ig

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